[a sós]

05/11/09

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Ela sorri-lhe. A sala cheia. As luzes num tom azul, quente. As pessoas à sua volta. Ele sorri-lhe e estende-lhe a mão. A mão à qual ela devolve a sua. Um puxão suave arranca-a do lugar estático onde ela estava e o seu corpo embate ligeiramente contra o corpo dele. Os olhares ficam mais perto, próximos, ainda com mais brilho, mais rasgados pelo sorriso ténue e preciso. A respiração um do outro a sentir-se sobre os lábios: o lábio superior que ela morde suavemente, baixando o olhar, por breves instantes, num jeito tímido e cúmplice. Conduzida por ele, os seus passos são brandos, mas ritmados. Ela deixa-se ficar no braço dele, na mão que a agarra pela cintura, no peito que recebe contra o seu. O peito quente, suave, onde ela deita a cabeça à noite, onde habitualmente se refugia do escuro, onde lhe pede um consolo que ele sempre lhe dá. O peito quente, onde ele a protege, agora não tem só escuro à sua volta: o breve toque que lhe permite, no meio das voltas que giram sobre os seus próprios pés, no meio dos sorrisos que trocam, no meio das mãos que se procuram e que se agarram e que se soltam, fá-la sentir a mistura enigmática e reconfortante do desejo pelo que lhe é doce, terno. O desejo atrevido, que provoca arrepios no estômago, que a faz fechar as pálpebras num deleitamento de segundos ao sentir o perfume dele. As mãos dela, os seus braços frágeis, os seus seios ligeiros, o seu pescoço despido, a embater no seu corpo, a fazê-lo sentir o perfume do seu cabelo comprido, solto, livre, fá-lo sentir vontade de a agarrar mais, de não a deixar escapar do seu peito na próxima volta sobre os seus próprios pés, de colocar os seus dois braços à volta do seu tronco, de aninhar o seu nariz no colo quente do seu pescoço e beijar-lhe a pele, com um toque suave de lábios, para sentir o seu calor. [Como se estivessem a sós.] A música e a noite, perfeitas, sem importar quem estaria ali, quem os fitaria com um olhar curioso, quem denunciaria aquela paixão entre os dois, aquele amor doce, porque o mundo era, naquele instante, apenas deles. As luzes quentes, comedidas, azuis, de várias cores, com fogo, sobre o rosto, sobre as mãos, sobre os corpos. Ela sorri-lhe docemente. Ele morde o lábio, mais uma vez. Ela solta uma gargalhada tão livre que o ligeiro levantar de cabeça, para rir mais liberta, faz-lhe dançar o cabelo para trás. O pescoço despido dela. O olhar fundo, brilhante, dele. As ancas que se encontram, as mãos que se tocam, os encontros que fingem ser um pouco mais demorados só para sentirem o calor um do outro, o ritmo entre eles e uma felicidade de estarem, ali, os dois, juntos, inteiros um para o outro, com o olhar a sorrir quase tão mais do que os próprios sorrisos. [Eles estão sós. No mundo deles, eles estão a sós.]

[estou aqui]

02/11/09

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Por onde andas tu, com esse olhar terno de quem não receia fitar o meu, com esses braços longos e fortes a quererem o abraço demorado que tanto reconforta, com o sorriso doce de quem compreende o que fica escondido das palavras? Por onde andas tu, que chegas sempre, independentemente do dia, das horas, com a saudade funda no peito, como se tivesses estado ausente durante meses, embora tendo estado comigo ainda ontem? Por onde andas tu, que me adormeces sobre o teu peito, com os teus braços à minha volta, com os teus dedos no meu cabelo, com os teus lábios murmurantes na pele repousada da minha testa? Por onde andas tu, que me sussurras ao ouvido palavras quentes de afecto, promessas que só fazem nexo aos olhos de quem sente paixão, afecto? Por onde andas tu, que te deitas a meu lado, que me olhas nestes meus olhos, que me fitas as emoções, que não temes, que não foges, que queres ficar comigo no mundo que é apenas nosso? Por onde andas tu, que me dás a mão na rua, que te aninhas no meu corpo para dormirmos melhor, que és calor e calma, ternura e afecto, desejo e sonhos? Por onde andas tu, que me sorris lá do fundo, ainda ao fundo da rua, estendendo-me os braços mesmo quando ainda estás longe, que me pegas ao colo e que nos giras sobre os teus próprios pés, que me beijas o canto dos lábios com um sorriso maroto de miúdo, que dizes que me amas sem esperar que o diga eu primeiro? Por onde andas tu? Onde te demoras, sem fazer conta de que continuo, aqui, à tua espera, a errar nos caminhos que escolho, a querer dar o tanto de mim a quem não lhe sabe dar valor, a dar-me a abraços que não sentem a mesma saudade de quem sou? Tu: que não medes distâncias para poderes estar comigo; que não equacionas cansaços para poderes repousar em mim; que não te escondes atrás de escudos, por ser eu a tua força; que não chicoteias as palavras, com orgulhos desnecessários, com jogos cansativos, porque sabes que cada palavra dessas poderá ser funda e inevitável de mais? Por onde andas tu, para quem não há passado, para quem não há medos que nos condicionem, para quem não há coragem que esgote? Por onde andas tu, que tens orgulho em nós, que te emocionas no meu colo, que me contas os teus receios, que me pedes ajuda e conforto, que me fazes sentir importante? Por onde andas tu, para quem tudo o que importa somos nós, aqui e agora?

Por onde andas tu?

[Estou aqui. Estou, exactamente, aqui. ]

[deixar de evitar que sim]

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Deixar que o silêncio morda as emoções que não verbalizo. Deixar que os braços me abracem na quietude a que me obrigo. [Ainda.] Deixar que as noites se deitem ao meu lado: até que seja dia; até que gastem todas as palavras que poderiam gastar comigo, com o que sinto, com o que relembro, com o que ainda sou. [Sem ti.] Deixar que as melodias me envolvam; que se abriguem por dentro do meu corpo; que fiquem alojadas no calor do meu peito; que se agarrem à minha carne, com força, e que façam malabarismos, num palco que não existe mais, para um público que já não vê e que já não sente. [Um público que já não se importa.] Deixar que o tempo seja suficientemente duro para que nada mais reste por dizer, para que nada mais reste sequer por sentir. [Fundo.] Deixar que o silêncio dure e que as minhas emoções se habituem a ficar caladas, a não terem mais nada por dizer, para que eu possa ser vazio apenas. Vazio: virgem. Vazio: sem memórias. Vazio: sem dor. Vazio: sem eco.

[Deixar que morras, definitivamente. Sobretudo, deixar de evitar que sim.]

[rosto]

24/10/09

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Hoje, sinto-me com o coração quente. Deixo-me levar. As melodias. Os sons. As vozes. Deixo as palavras entrarem no meu corpo, deambularem pelas frestas minúsculas do que sou e a noite, aqui, não me permite esquecer-me de mim. De mim. Do que sou. Sou tudo o que ferve, tudo o que não tem voz. Sou as palavras caladas, por dentro do corpo, na penumbra do silêncio. Sou eco. Sou o eco obtuso que me agarra a ti, que afinca as tuas mãos no meu braço, que me detém em frente ao reflexo de mim mesma, que me faz cerrar os olhos quando quase te vejo à minha frente. Sou o tremor dos lábios, o enlace dos meus cabelos nas tuas mãos, a pele parada na tua. Os meus segredos são os teus. E, apesar disso, por onde andas tu?
[Deixo-me levar. O toque leve da melodia é uma chama de fogo que parece ter a forma do teu rosto.]

Nota: Escrito em 2007.

[Escreve]

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São, cada vez mais, raras as noites em que não consegue dormir. Anda às voltas, na cama, vendo a luz da noite tombar nos vidros da janela, cujas persianas recusa fechar, com medo que o dia não a acorde devagar de manhã. Sente o silêncio da noite como um hálito quente direccionado à própria boca e os olhos fervem-lhe dentro da carne. Não sabe porquê, mas há muito tempo que não se sentia assim. Anda às voltas com as palavras. Anda às voltas com as emoções, dando-lhes encontrões que, logo, as desequilibram e, de seguida, no mesmo instante, estendendo-lhes a mão como se nunca as quisesse deixar escapar. Sente o eco da noite cravado na garganta, aflito, pertinente, minucioso e tardio. Sente o corpo sobre os lençóis – o corpo irrequieto, desconfortado, com uma vontade muda de correr.
São, cada vez mais, raras as noites em que, curvada sobre os seus próprios pensamentos, vê as horas passarem, à frente dos seus olhos, vincadas a fluorescente no mostrador do relógio que fica em cima da mesa. Estende os braços, as pernas; encolhe os braços, as pernas; rebola, por cima do lençol, como se a carne lhe fervesse, como se o oxigénio lhe faltasse, como se tudo, em si mesma, fosse urgente. Morde as palavras, que querem fugir-lhe pela boca, e enrola-as, entre as gengivas, como uma grande argamassa que não consegue desfazer dentro da boca.
Levanta-se. O hálito quente embacia-lhe os olhos, queima-lhe a pele... Levanta-se, descalça, sem acender as luzes, num silêncio de palavras, enquanto a melodia se crava às entranhas do seu corpo, revirando-as, enleando-as, sugando e ventilando, com dedos que perfuravam as formas e que deixam, na boca, no hálito quente da boca, no coração quente e calado, um tremor aflito e retardado.
Mais uma vez, mais uma noite, foge-lhe a carne por dentro dos dedos. A própria carne dos braços, a própria carne dos olhos, a própria carne do coração. É queimadura. É falta de fôlego. É vontade de correr e, sim, de voar. Quer voar para longe, para outros mundos. Quer ser livre nos gestos, nas palavras, nos sentimentos e nas emoções vorazes que lhe consomem o corpo. [Escreve.]

Nota: Um texto de 2007 que encontrei, escrito por mim, por aqui.

Saudades do Alentejo (mas não só)

14/10/09

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Sinto saudades do Alentejo. Quando era pequenina, costumava passar muitas das minhas férias nele. Sobretudo, as épocas festivas que englobavam toda a família. Sinto saudades daquele Alentejo que é, para mim, muitas ruelas de terra batida, com altos e baixos, com buracos, com poças de água que nunca deixavam perceber a sua profundidade exacta, o frio e uma escuridão estranha ao início da noite: uma escuridão diferente, calada, a olhar para nós, como se o Alentejo estivesse perdido do mundo e nós o tivéssemos acabado de descobrir, ali, assim, parado, cúmplice nosso. A rua de terra batida descia e, na noite, as luzes da enorme casa acenavam-nos, indirectamente, à medida que o carro se ia aproximando, deixando-nos perceber o portão e, depois, o pátio e, depois, o baloiço largo com toldo e, depois, a porta dos mosquitos e, depois, a porta blindada e, só então, os corpos que apareciam, de repente, no rectângulo dessa mesma porta, com malhas grossas vestidas nos corpos e botas de borracha à porta, preparadas para aquele instante em que sairiam do calor acolhedor da casa para se meterem por entre as terras, para caminharem pela barragem, para se sentarem sobre o monte. Saudades daquele Alentejo que era uma árvore de Natal enorme logo à entrada do pátio, ao lado do portão, cheia de luzes que se acendiam e que se apagavam à noite, de estrelas e de anjinhos, connosco, ali, todos sentados, em fila, no baloiço grande com toldo, a cantar o reportório longo de canções de Natal, desde o tradicional «toca o sino pequenino. Sino de Belém» ao mais moderno «last Christmas, i gave you my heart, but the very next day you gave it away», sem esquecer o efusivo «vamos cantar as Janeiras, vamos cantar as Janeiras; por esses quintais adentro vamos às raparigas solteiras». O gozo cúmplice daquele ridículo saudável e animado. Quando era pequenina, costumávamos passar as férias naquela casa fria e, ao início da noite, ficávamos todos na sala, espalhados pelos sofás, em frente à lareira, a jogar às cartas ou a tentar adivinhar os filmes e as personagens através dos gestos que um fazia, ou a dançar e a cantar aquelas músicas bem antigas, mas cuja letra todos – incluindo os mais novos – sabíamos. Eu gostava daquele calor lento a crepitar à minha frente, do encarnado e do laranja do fogo, adormecendo-me a rigidez, tornando-me sonolenta. Via o meu tio abanar o fogo e o avô da minha prima, que trazia mais lenha lá da rua, porque a cortavam no pátio de trás, que dava para uma barragem e para o grelhador. De manhã cedo, ainda com o frio a congelar as pontas dos narizes, a impedir as mãos de saírem para a rua sem luvas, obrigando aos casacos pesados, às samarras, às botas, às meias grossas até ao joelho ou aos collants, o machado a estalar as madeiras, a cortá-las aos pedaços pequenos. O mesmo pátio onde eu e a minha prima nos sentávamos, sobre os azulejos brancos, ainda cedo, para ver se as nossas obras de arte, feitas em barro, já estavam secas, já podiam ser pintadas. O mesmo pátio onde almoçávamos quando o tempo estava melhor. À noite, o corredor enorme, as entre-divisões, as diversas portas, a casa das armas e o nosso medo de meninas a imaginar sempre que estaria alguém, ali, na divisão seguinte, resguardado num dos cantos, à espera que passássemos por ele para então nos agarrar. Os gritinhos de medo e as gargalhadas quando, a explorar o medo da outra, pregávamos sustos uma à outra e nos ríamos dos gritos de terror que provocávamos. As vezes em que escapávamos, a meio da noite, das camas e percorríamos o longo corredor da casa, passando por todos os quartos, pelos divãs abertos nos corredores estreitos, onde alguns dormiam – porque éramos muitos –, e a adrenalina de tentarmos não ser descobertas. A minha inevitável característica de, quando já estávamos no final do percurso, a chegar finalmente à casa-de-banho, sem acordar ninguém, acabar por deixar cair alguma coisa, encalhar em alguma quina de um móvel, espirrar ou deixar escapar algum som que nos denunciava logo ali e que não nos privava de levarmos um raspanete. O Alentejo que era as nossas conversas antes de dormirmos – as conversas que se prolongavam por toda a noite e que não deixavam ninguém dormir – porque éramos miúdas e falávamos, falávamos, falámos até à exaustão. E riamos. E tínhamos medo de esticar as pernas, debaixo do cobertor, porque imaginávamos monstros na ponta da cama, à espera de nos agarrarem os pés. O Alentejo que era o avô da Rita a entrar pela sala, vestido de Pai Natal, com um grande saco de prendas que distribuía por todos. A barba branca na cara, o gozo dos meus tios, as músicas de Natal a soarem pela casa, os meninos e as meninas todos sentados no chão, entre os sofás grandes e pequenos que formavam um círculo especialmente engendrado para aquela noite. As filmagens que fazíamos, numa miscelânea entre o humor familiar e as cenas mais curiosas do Hermanias. Saudades daqueles tempos, do cheiro a filhós coberta de mel, estaladiça, e do frio gelado que nos cortava a cara, dos passeios de bicicleta e de mota que dávamos pelos montes, onde acampávamos para fazer piqueniques, fugidas temporariamente daquele mundo de adultos, para falar dos colegas da escola, do rapaz mais giro da turma, do quase beijo dado num dos intervalos das aulas. Saudades de ser pequenina, de ter sonhos grandes à nossa frente, de não sabermos, nem fazermos sequer qualquer ideia, de como iria ser a vida. Saudades do Alentejo e de ti, de quem éramos, de quem fomos juntas, de quem éramos todos juntos: porque, por mais que custe e por mais que o futuro possa sempre ser uma boa mudança, o tempo – esse que já passou, esse que foi tão doce - não volta atrás. Nunca mais. A casa de férias do Alentejo que foi vendida por causa de um cancro na garganta. Um Alentejo que nunca mais existiu, para todos, da mesma maneira.

Carrossel de emoções

12/09/09

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Levanto-me duas ou três vezes. As horas avançam. As horas da madrugada avançam até que deixa de ser de madrugada. Deambulo por dentro da cama, com os pensamentos em catadupa a tomarem conta de mim e a música vai sendo a única companhia desta madrugada em que não durmo, em que todo o meu corpo é uma tempestade de inquietude, impaciência. Dou por mim quando o sol está quase a nascer no outro lado dos vidros da janela e os meus olhos, sem energia, sem repouso, ficam cansados e lentos. O cérebro humano tem uma capacidade extraordinária para colocar pontos finais nos assuntos. Escolhe, quando nos tornamos mais ágeis face às coisas que nos vão acontecendo, sobre quais pensar, quando pensar, até que profundidade pensar. Tem uma memória selectiva que, em vez de explorar tudo aquilo que a consiste, consegue antes erguer uma barreira em torno daquilo que menos lhe agrada. E vive, assim, durante meses, durante anos, afastado e protegido de si mesmo, daquilo que o pode derrubar, daquilo para que sabe não conseguir encontrar resposta, daquilo que não consegue confrontar sem perder a lucidez, sem derrubar o corpo, sem estremecer a segurança. Levanto-me duas ou três vezes e as horas avançam sobre a madrugada que já não a é. O cérebro não aguenta tudo. A força assenta numa linha ténue que existe entre uma coragem quase cega e teimosa e uma fragilidade interior que vive, com a mesma intensidade que essa coragem, os detalhes e as expectativas. A força está no equilíbrio destes dois extremos e, quanto mais extremados, mas mais equilibrados também, maior é a garra com que se vive, maior é o coração que se tem dentro, maior é o horizonte que se quer abarcar, maior é o desejo, maior a comoção, maior a fragilidade. Deambulo por dentro da cama, com os pensamentos numa catadupa ruidosa que se deita ao lado da minha almofada, de olhos grandes e fixos a olharem para mim, enquanto, de olhos fechados e auscultadores nos ouvidos, finjo que não percebo a sua presença. Os sons, uns à frente dos outros, oscilando, intensificando, como uma vaga de água que derruba as estruturas, que percorre quilómetros de terra, que arrasta tudo consigo. Finjo que não dou pela sua presença, mas sei, a cada respiração, que eles estão ali. Estão ali a olhar para mim, de olhos fixos nos meus, à espera que eu erga as pálpebras dos meus olhos e revele, sem saída, a minha incapacidade de reagir e a minha força já dormente dentro de quem sou.

[o doce de figo da minha avó]

20/08/09

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Quando era pequena – assim, por volta dos meus seis ou sete anos –, o meu pai costumava ir buscar-me à escola primária – assim, pela hora do almoço – e, umas vezes, íamos por longos minutos a um café com esplanada, situado no centro da Sé, e que se chamava “O Seu Café”. Mas, noutras alturas, em que não íamos por longos minutos à esplanada d’”O Seu Café”, passávamos pela casa dos meus avós paternos que ficava mesmo a meio do caminho, entre a minha escola e a nossa casa. A casa dos meus avós paternos era simples, humilde, e era térrea, ficando numa rua estreita, mas muito longa, que vinha lá desde a entrada de Faro até ao início da calçada de pedra, junto à Rua do Crime. A porta tinha um pêndulo pesado que, agarrando-o e puxando-o um pouco para cima, deixavamo-lo pender contra a porta para soar um som de campainha. Na entrada, ao meu lado esquerdo, havia uma planta verde dentro de um vaso grande, prostrado no chão, e à frente, no fundo da sala, no outro lado, havia uma estante com a televisão e um arco de pedra que dava passagem para a casa de jantar.

O meu avô, que sempre tinha trabalhado ali perto, na mesma rua, estava agora aposentado e, quando eu lá chegava com o meu pai, constantemente o encontrava sentado num sofá individual que ficava encostado a uma das paredes da sala, em frente ao arco de pedra e virado para a televisão. O meu avô era alto, como o meu pai, mas não tanto, e usava óculos para ver ao perto e ao longe, penso eu. Não tinha cabelo. De pouco mais me lembro do meu avô paterno, para além de que me tratava sempre pelo meu diminutivo. O avô Hernâni. A minha avó, que era muito baixa, magríssima, com nariz grande da velhice, cabelo escuro amarrado num carrapito no alto da cabeça, e óculos ovais pendidos na ponta do nariz, andava numas passadas pequenas, mas muito velozes, incapaz de ficar quieta no mesmo sítio por muito tempo. Era, como muitas avós, religiosa, mas ficou muito mais religiosa ainda depois de o meu avô morrer. A avó Júlia.

Os meus avós paternos não eram, nem nunca foram, propriamente afectuosos. Não faziam festas no meu cabelo, nem me contavam histórias para crianças, nem me coçavam as costas ao adormecer como fazia a minha avó Lurdes – a materna. Mas gostavam muito de mim. E, quando eu os visitava naquelas tardes após as aulas, – e lembro-me tão bem desta imagem – a minha avó Júlia caminhava, nas suas passadas pequenas, mas muito velozes, através do arco de pedra, aproximava-se do armário da sala, onde estava a televisão que o meu avô via, e tirava de dentro do armário uma taça grande de vidro, tapada por um papel de alumínio ou, talvez mais correctamente, por um pano apenas. Sem dizer quase nada, os meus olhos iluminavam-se a olhar a taça grande de vidro e, com uma colher grande, a minha avó oferecia-me uma bola de doce de figo, sentada sobre a colher, para eu devorar como se não houvesse mais nada no mundo. E, às vezes, levava comigo uma taça também, pois a minha avó sabia que eu adorava o doce de figo que ela fazia.

O meu avô morreu alguns anos mais tarde. Não muitos. Não me lembro, ao certo, quantos. Estiveram casados uma vida inteira: o meu avô Hernâni e a minha avó Júlia. Foi a primeira morte da minha família. Durante anos, achei que a tinha pressentido. Durante anos, lembrava-me de um vulto claro que passava por trás do roupeiro do meu quarto, como se ficasse encostado a ele, de rosto amparado pela madeira, a olhar para mim. Um vulto que desapareceu, após a sua morte. Mas nunca falei disso com ninguém. Eu era uma miúda de seis ou sete anos. E senti culpa por não chorar. A morte foi-me uma coisa estranha. Foi como se não tivesse existido. Existiu – eu sei –, mas foi como se não tivesse existido. Durante meses, senti que o espírito do meu avô me acompanhava. A voz dele, a chamar-me pelo meu diminutivo, e a imagem dele sentada no sofá em frente à televisão: acompanhavam-me. Sentia que ele estaria ali, agora, sem que eu o pudesse ver, mas presente, a ver tudo o que eu fazia. A minha avó morreu mais tarde. Uns anos mais tarde. Eu já não era miúda, mas adolescente. A morte continuou a ser uma coisa estranha, para mim. Vi o meu pai chorar, sendo a primeira vez que o via assim: a chorar. Mas eu continuei sem chorar e continuei a culpar-me por isso: que neta era eu que não chorava a morte, a perda?

Apesar do doce de figo e da imagem engraçada dos meus dois avós paternos, nunca fomos muito próximos. Não havia abraços, brincadeiras, calor humano. Havia um doce de figo para uma menina de seis ou sete anos. Passei a gostar do doce de figo e, sempre que posso, como-o onde posso, onde sei que ele há, onde o vou encontrando. Mas tenho de partilhar uma coisa: Sinto saudades de comer o doce de figo da minha avó Júlia.

[nenhuma outra forma]

23/06/09

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Nenhuma outra palavra poderia ele dizer para explicar melhor o seu sentimento. A razão nem sempre entende. O seu coração nem sempre quer entender seja o que for. Funciona lentamente, quase como se não quisesse ser ouvido, nem visto. Não por mim, nem mesmo por ele. Por ninguém. Entende-se que ele se tenha oprimido; que precise de espaço, embora não o mencione por palavras; que se sinta cansado, depois de tantas vezes ter dito e explicado, corrido e ficado simplesmente a aguardar; que a dimensão do desejo, ou do obtuso, nem sempre é suficientemente pequena para que ele caiba dentro, nem suficientemente grande para que o consiga amparar. Nenhuma palavra conseguiria ele dizer mesmo que tentasse arduamente, pois nem todas as emoções encontram expressividade, nem todos os sentimentos encontram uma razão. O seu coração poderia estar fraco e deter-se, por vezes, em deambulações imparáveis que, quando desse conta, lhe criava bolhas nas solas dos pés; poderia baixar os braços e encostar-se ao muro, tentando fugir do calor abrasador, tentando evitar os olhos de quem passava, mas os braços eram maiores do que ele desejaria e, quando os baixava, acabava por tropeçar neles e por ter de novamente os levantar; poderia respirar fundo uma vez, duas vezes, três e quatro e cinco e seis vezes, consecutivamente, sem dizer mais  nada, mas o seu corpo era uma massa imparável que desejava com mais força do que poderia, alguma vez, medir ou até mesmo prever.

[Nenhuma outra forma de viver poderia ele encontrar, senão a de viver incondicionalmente.]

o sonho

07/06/09

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Redondo, dando voltas elegantes sobre a palma da minha mão, o sonho, que fica silenciosamente a sorrir e a olhar para mim, persiste. Persiste nas voltas redondas que vai dando e no olhar vivo que vai caindo sobre mim, que analisa o contorno dos meus lábios – à procura do leve traço erguido no canto, a significar inconformismo – e que sente o bafo quente da minha boca, sem que os seus olhos se embaciem e sem que o seu rosto se afaste do incómodo calor. Altivo, estendendo-se para parecer ainda maior, para ser visto, para não persistirem dúvidas disso, o sonho, que se coloca de bicos dos pés sobre a palma da minha mão, enche de ar o peito. Enche de ar o peito e fica todo esticadinho, segurado na ponta dos seus pés, contendo a respiração para manter o equilíbrio. Paciente, de braços dobrados, de cotovelos deitados sobre a palma da minha mão, de queixo apoiado nas palmas das suas mãos, de olhos abertos na direcção dos meus, de sorriso ténue e permanente nos seus lábios alaranjados, de pestanas longas e muito negras a abrirem e a fecharem docemente, o sonho, que assim fica muito tempo, sem pressas nem agonias, espera que eu olhe para ele, que eu precise de lhe dizer «não saias de mim», «fica», «mostra-me as tuas mãos e agarra as minhas com força». Não que ele saísse, não que ele não as mostrasse, não que ele não as agarrasse com força, mas o sonho, sendo paciente, aguarda que seja eu a pedir-lho, não se impondo, não invadindo. E, quando não me fico apenas por chamá-lo, quando dialogamos de olhos nos olhos, calmamente, pergunto-lhe: «Ficas comigo?». E ele, embora num tom doce e cordial, devolve-me uma pergunta: «O que farás para isso?» E penso. Reflicto. Redondo, altivo e paciente, estando ali, apesar de não se dar logo por inteiro, o sonho diz-me, nas suas entrelinhas, nas palavras que não profere em voz alta, no olhar calmo que intercepta o meu, que só pode ficar assim: permanecido, mas não detido. Porque o sonho não fica só porque sim, só porque lhe pedimos que fique, só porque queremos, só porque o desejamos mais do que tudo o resto que não é o sonho. O sonho, no seu jeito paciente, altivo, redondo, a fazer-se ver, a fazer-se brilhar, aguarda que os meus passos ganhem direcção, que a minha vontade ganhe determinação, que a minha certeza seja uma. Por isso, com os seus pés na palma da minha mão, ele continua a olhar para mim e, mais uma vez, me pergunta: «Então, quanto estás tu disposta a lutar, afinal, para que fique?»

[ou a dela?]

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Entender no meio das palavras. As minhas palavras que nem sempre são as melhores, as mais fáceis, as mais rápidas, as mais úteis. Palavras que silencio como se não houvesse mais nada a reflectir por dentro delas, como se não fossem tacto nem sentimentos, nem lembranças nem desejos, nem medos ou mesmo sonhos – a um, a dois. Entender-me no meio dos silêncios que fazem as minhas palavras. Esse silêncio com o peso dos meus olhos grandes, fixos, com pestanas pesadas que abrem e fecham o mundo. As minhas palavras que nem sempre dizem tudo, que nem sempre dizem sequer metade do tanto que poderiam dizer. Onde ficam as tuas mãos? Prostradas sobre o silêncio que faço, sobre o silêncio que fazemos. São mãos grandes – maiores do que muitas outras, com maior capacidade de agarrar e de conter –, mas nem assim deixam de ficar prostradas, de poder apenas ficá-lo, sem mais nada poderem fazer. Porque nem sempre mais se pode fazer. Nem sempre adianta fazer. Nem sempre se sabe, sequer, o que fazer. E onde fica o tom da minha voz? Onde se esconde ele? Dentro do meu corpo, da minha pele, ou dentro das tuas mãos, prostradas e fechadas, sobre mim? O tom da minha voz que oiço, tantas vezes quantas as que não desejaria propriamente, dentro da minha cabeça. Como uma voz doce que quer ser voz não de uma consciência qualquer, mas da minha. A minha voz da consciência que gosta de ficar metida dentro do silêncio que eu faço, que gosta de olhar as paredes e as casas, de sentir frio dentro do meu cérebro, de ficar a contemplar os outros através os meus olhos e de me tentar fazer cócegas no estômago cada vez que lhe tento sorrir, sem medos nem receios, sem tentativas inúteis de desordem. Entender-me no meio dos silêncios das palavras é ficar a ouvi-la. Ouvi-la ficar a falar comigo, esquecendo os contextos e os minutos: porque passam todos de uma vez, como se ambos fossem um só rosto tão fácil de ignorar, sobejamente, sem trazer arrependimento nem remorso. Essa voz da consciência que dorme comigo; que reflecte os seus olhos no tecto do meu quarto, quando acordo, e que fica a olhar para mim, a desejar-me um «bom dia» silencioso, com hálito a insónia. Às vezes, gostava que a voz fosse apenas o leve trago doce do perfume na minha pele; a ténue recordação das histórias contadas, ao adormecer, nos tempos da minha meninice; o nervosismo aflito, resvalando por dentro do estômago, antes de um exame, antes de um encontro importante e há tanto desejado. Às vezes, gostava simplesmente que ela se calasse, que ficasse simplesmente ali, sem dizer mais nada, sem questionar, sem procurar entender, sem tecer considerações sobre aquilo que vê e aquilo que pressente, sem achar que se pode deitar sobre a minha pele, como se fosse eu, como se pudesse estar dentro da minha carne e controlar os movimentos do meu corpo, a percepção que eu mesma tenho do mundo. Mas a minha voz da consciência não é vulnerável ao sopro, ao vento, à rejeição, à indecisão, ao desejo de sossego e de paz e de silêncio e de nada. Coabita. Exige. Detém. Tem mãos que não ficam prostradas, como as minhas ou como as tuas, e que me agarram no braço; que me puxam pela mão, arrancando-me da direcção em que vou num caminho, para me levarem por um outro, para me mostrarem qualquer coisa que eu, por breves instantes, poderia não encontrar naquela que os meus pés estariam a percorrer. Ela – a voz –, coabita, exige e detém pedaços de mim, do que vou sendo, de a quem me vou dando, e todos e tudo acabarão, mais cedo ou mais tarde, por perceber que a voz da minha consciência não julga poder deitar-se apenas sobre a minha pele, como se fosse eu, nem dentro da minha carne e controlar os movimentos do meu corpo, mas também deitar-se sobre a pele de tudo e de todos, como se fosse eles, e dentro da sua carne, controlando os movimentos dos seus corpos.

[O que fica, afinal, dentro, cerrado, tão por dentro, das tuas mãos prostradas? A tua vontade, ou a dela?]

- o que fotografo -

05/06/09

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p e l e

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Na minha pele, nem sempre sei quem sou. Nem sempre me reconheço. Nem sempre me percebo. As minhas emoções são pontos isolados, esbatidos num grande espaço de luz, que não têm necessariamente sempre os correctos pontos de interligação; que nem sempre são grandes o suficiente para que se vejam, uns aos outros, ou para que se deixem ver. Pontos circulares, ou linhas rectas sobrepostas umas às outras, que podem ser fundas em demasia ou tão suaves que quase parecem nem estar lá. Na minha pele, debaixo da minha carne, o meu coração bate mecanicamente, como se soubesse de cor qual a força e o compasso do seu «bum bum bum», como se não precisasse acordar todas as manhãs e dizer a si mesmo que «é mais um dia que aqui está». Não precisa. Mal de mim se precisasse. Mas, na minha pele, toco e nem sempre sinto as coisas que alcanço com os meus dedos. Como, quase, se estivesse dormente. Não o estou. Mal de mim se, efectivamente, estivesse. Mas a queda não magoa mais. O calor não agoniza a pele. O frio não açoita a coragem e a vontade. Qualquer coisa que se diga, que escreva ou que interprete, é apenas letras, palavras, uma argamassa de símbolos que não tem forma, que não desenho com luz dentro do meu cérebro. Pudesse eu perceber que, por vezes, me vou apenas deixando ficar e que o tempo, que perco, é, por absolutamente certo, um tempo que nunca mais voltará.

Fundo do muro

04/06/09

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Espreitar-me no fundo do muro. Estender-me a mão, debruçada sobre o muro de tijolo, com as costas rectas em direcção ao chão, com as pernas em equilíbrio para não revirarem todo o meu corpo e metê-lo todo enfiadinho, como uma lança recta, a embater a pique no chão. E a ficar cravada, no chão, com a ponta afiada que, logo, de uma só vez, já não separa, já não se solta, já não sai, por nada, por causa nenhuma, por força alguma, do chão. [Pique. Recta. Lança. Afiada. Teimosa. Coisa nenhuma.]

Espreitar-me e ficar, assim, a olhar-me, por cima do meu próprio ombro, sem dizer nada. O silêncio comedido dos olhos que observam com medo de falar. As palavras embaciadas dentro dos próprios olhos, enroladas debaixo da língua. Ser fogo na ponta fina da língua, enrolando-se sobre a pele, resvalando pela mucosa abaixo e caindo, certeira, como um soco, no estômago molhado. Corrosivas podem ser as palavras, os actos que não se entendem, as repetições que só acalentam o vício de viver, seja de que maneira, seja sob que regras, seja cruzando que orifícios defuntos a que, tantas vezes, no auge do grito aflito, do eco silencioso que arranha o coração, chamamos, com dentes largos e lábios finos, com maxilares quadrados comprimidos como se fizessem sexo dentro do hálito negro: descalabro; finura; agulha; sangue escuro. [Sexo que já não sente prazer.]

Munir-me de sorrisos que são apenas lábios marrecos. Gemer, silenciosamente, mordendo-me a carne, enquanto contenho a dor de suportar o peso das horas, dos dias, dos meses. Rir-me? Estalar os meus dedos contra a tua pele. Enfiar-me dentro do teu silêncio e saltar por cima dos buracos. Sacudir-me? Invadir-me. Evadir-me. Forçar a ponte entre o que se é e o que se resta. Escapulir-me? Soltar os meus braços e contar até dez, imaginando-me cair pelo buraco que afunila no meu pensamento. Cantar-te? Não danço. Obrigada. Hoje, não me apetece. Hoje, sou pés colados no chão; sou braços caídos na direcção do infinito; sou urgência calada no hálito que embacia a palma das tuas mãos; sou nexo, sem nexo, sem sexo, sem forma, nem volúpia, nem prazer, nem memória. [Memória da luz.]

Há quanto tempo estás aí?

[querer tanto]

23/05/09

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As minhas mãos cansadas derramadas sobre o joelho
Os meus olhos abertos em direcção à luz
O silêncio – intenso – a dançar no amplo palco vivo em mim
O traço no rosto brando a caminho de, um dia, ser velho
O futuro como uma linha incógnita que a confiança reduz
e a hábil impossibilidade humana de antever o fim

O pedaço de silêncio abandonado dentro do corpo
[O abandono suave que sorri docilmente
que estende a mão branca e forte mesmo assim]
O querer tanto, mas tanto que mesmo o muito se torna pouco
O querer tanto, tanto que não se consegue ser feliz realmente
O querer tanto, tanto que o mundo fica tão aquém de mim

[aquém]

E no olhar frenético que guardo do mundo
No olhar que procura deter verdade e quente
No olhar fundo que é hálito doce a alma
a minha sede de sentir tão mais fundo
de ser onda de calor que abraça intensamente
de ser felicidade tão verdadeira quanto calma

[calma]